SÍNDROME DO IMPACTO
DEFINIÇÃO
O quadril é uma articulação do tipo bola e
soquete, na qual a cabeça do fêmur, esférica,
se relaciona com a cavidade da bacia, o acetábulo, que tem
a forma côncava. Quando existe qualquer alteração
no formato da cabeça ou do acetábulo haverá
um impacto entre essas partes, o que irá provocar a destruição
da cartilagem articular e a conseqüente artrose.
O labrum é uma espécie de moldura que reveste as
bordas da cavidade acetabular da bacia e a mantém firmemente
articulada à cabeça femoral.
Alem disso ele, juntamente com a cápsula e os ligamentos
que a envolvem, fecham hermeticamente a junta, permitindo que o
fluido sinovial circule em seu interior e a lubrifique. Quando há
lesão do labrum por traumatismos agudos ou repetitivos, ocorre
o extravasamento do líquido com inflamação
e liberação de substâncias químicas que
irão causar danos à cartilagem articular. A estrutura
fibrocartilaginosa do labrum serve de amortecedor para o impacto
a que o quadril é submetido durante as atividades físicas
e desportivas. Por circundar toda a articulação na
parte superior e unindo-se ao ligamento transverso na parte inferior,
o labrum é um componente de suma importância, juntamente
com o ligamento ílio-femoral anterior, a cápsula articular
e as demais estruturas estabilizadoras .
Esportes de impacto, como artes marciais (tae-kwon-do, jiu-jitsu,
judô, capoeira), corridas de longa distância ou 100m
rasos, tênis, golfe, balé e futebol, quando realizados
por pessoa que apresentam uma predisposição anatômica
(defeito na formação do quadril) podem vir a sofrer
da síndrome do impacto.
A partir da década de oitenta pesquisas médicas demonstraram
que o impacto repetido da articulação coxo-femoral
pode provocar uma lesão do labrum e da cartilagem próxima
e causar um efeito degenerativo progressivo da junta por alterações
bioquímicas.
Um desses pesquisadores, Reinhold Ganz, no início de 2001,
definiu os tipos de alterações genéticas que
predispõem à síndrome do impacto, subdividindo-os
em dois grupos principais que, em alguns casos, podem até
acontecer simultaneamente. São eles o impacto tipo Pincer,
mais comum em mulheres, onde existe uma retroversão do acetábulo,
que se posiciona virado para trás e não para frente,
como deveria ser.
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| A seta assinala a cavidade acetabular |
Já nos homens a síndrome do impacto costuma ter como
causa um defeito na conformação da cabeça femoral
que, em vez de esférica , apresenta-se mais ovalada. Quando
o paciente realiza um movimento combinado de flexão (dobrar)
do quadril, adução (juntar as coxas) e rotação
interna, ocorre um contato brusco entre a parte defeituosa da cabeça
e o labrum. A repetição desse movimento acaba por
provocar uma lesão no quadril, caracterizada por dor e dificuldade
de movimentos.

Na ilustração acima, esquemática,
é possível visualizar o pinçamento do labrum,
em vermelho, espremido entre o excesso de osso, em amarelo, e o
colo do fêmur, em azul. Há uma penetração
da cabeça femoral para dentro do acetábulo, geralmente
por um posicionamento incorreto desse, em retroversão (virado
para trás). É a forma de impacto mais comum em mulheres.

No modelo acima a cabeça femoral apresenta-se
mais ovalada do que esférica. A zona de impacto, o excesso
de osso, denominado bump e o próprio labrum, assinalados
em vermelho, são os responsáveis pela síndrome.
A lesão do labrum acontece como conseqüência dos
traumas repetitivos na zona de impacto. Essa é a síndrome
do impacto mais comum em homens jovens.
O Camming é descrito na engenharia como sendo um
efeito excêntrico em uma junta tipo bola e soquete no qual
a bola passa de esférica a ovalada, provocando impacto no
bordo do seu encaixe e reduzindo a amplitude de seus movimentos.
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Efeito "Camming" ou "Cam"
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Efeito cêntrico
de rolagem
da cabeça femoral
com amplitude de flexão acima de 90º. |
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Efeito camming (excêntrico),
com a cabeça mais elíptica diminuindo o arco de
flexão e criando impacto femoro-acetabular. |
PREVENÇÃO
Toda pessoa que sente dor na virilha após esforço
físico deve procurar um especialista em quadril e se submeter
a um minucioso exame, pois uma lesão diagnosticada e tratada
precocemente poderá evitar a ocorrência de uma futura
artrose, que muitas vezes obriga a uma
cirurgia para colocação de prótese.
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anos, pessoas de 50 até
70 anos, pessoas acima de
70 anos, próteses
cimentadas, próteses
não cimentadas e substituição
de próteses.
DIAGNÓSTICO
Clinicamente há dor na articulação do quadril,
na virilha e face interna da coxa, que pode se estender até
o joelho. Muitas vezes a síndrome do impacto é confundida
com uma distensão muscular.
Manobras clínicas realizadas pelo especialista em quadril
podem levar ao diagnóstico, como o chamado Teste Faduri,
formado pelas iniciais de flexão, adução e
rotação interna. Esses movimentos, quando realizados
simultaneamente, provocam dor, por causa do impacto da cabeça
do fêmur com a porção antero-superior do labrum.
O diagnóstico por imagem é obtido com a realização
das assim chamadas radiografias em AP (antero-posterior) verdadeiro,
onde se procura identificar alterações no formato
da cabeça femoral e o sinal do cross-over, característico
da retroversão acetabular. As incidências em perfil
de Lequesne e Ducroquet são utilizadas na busca de alterações
no formato da cabeça.
O diagnóstico da lesão do labrum muitas vezes requer
a realização de exame de artro-ressonância magnética
com a injeção de contraste na articulação,
como mostram as ilustrações abaixo.
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| A seta longa mostra um labrum
normal |
A seta longa mostra um labrum
lesado |
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| Labrum normal (seta) |
Lesão do labrum (seta) |
TRATAMENTO
Uma vez diagnosticada a lesão do labrum, a cirurgia estará
indicada para aqueles pacientes que estão com dor e necessitam
retornar às atividades esportivas ou profissionais.
Uma lesão aguda pode ser tratada sem operar desde que seguida
de repouso, uso de muleta e observação por seis meses.
Ao final desse prazo e se ainda houver dor poderá ser indicada
uma cirurgia artroscópica
do quadril. Esse moderno procedimento vem permitindo o tratamento
de muitas lesões do quadril sem a necessidade de grandes
incisões ou cirurgias demoradas. Mas, como toda técnica
nova, requer, além de um instrumental próprio, um
cirurgião do quadril familiarizado com o procedimento e treinado
em centro especializado.
A retroversão acetabular e a síndrome do tipo Pincer
ou Cam, quando dignosticadas em pessoas que praticam atividades
de impacto, também têm indicação cirúrgica.
É feita uma remoção cirúrgica das deformidades
que provocavam o impacto. Essa retirada pode ser feita por artroscopia
ou por cirurgia aberta, dependendo do tipo e localização
da lesão.
Aqueles pacientes que já apresentam comprometimento na cartilagem
da cabeça femoral e do acetábulo podem se beneficiar
com a colocação de próteses
do tipo resurfacing, para jovens, que poderá, dependendo
do caso, trazer de volta sua condição física
anterior.
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